Menos gripe: o efeito colateral positivo do isolamento social na Dinamarca

Dados do governo da Dinamarca divulgados recentemente apontam para um efeito 'incomum' das medidas de isolamento social adotadas pelo país

GETTY IMAGES

“Em 2019/2020, a Dinamarca teve uma temporada de gripe bastante leve, de fato a mais leve durante vários anos. Os dados de vigilância mais recentes confirmam que a prevalência da gripe na Dinamarca ainda está em um nível muito baixo”, afirmou em seu site o Statens Serum Institut (SSI), órgão vinculado ao Ministério de Saúde dinamarquês e responsável por garantir a preparação contra doenças infecciosas e ameaças biológicas, bem como o controle de doenças congênitas.

Segundo Lasse Vestergaard, médico do departamento de Epidemiologia e Prevenção de Infecções da instituição, “é muito incomum ver um declínio tão acentuado no número de pacientes com influenza e amostras positivas de gripe em tão pouco tempo. Normalmente, a gripe diminui mais gradualmente durante o período da primavera”.

Um total de 260 pessoas na Dinamarca foram diagnosticadas com gripe de 15 a 21 de março, uma queda de 70% frente à semana anterior, quando 884 casos foram confirmados.

Isso apesar de que, segundo o SSI, o número de amostras testadas para influenza tenha permanecido bastante estável, com cerca de 4 mil amostras por semana.

“A redução nos casos detectados é sustentada por um declínio concomitante na proporção de amostras positivas de gripe, de 20% na semana 11 para apenas 7% na semana 12”.

Segundo o instituto, a redução “coincide com as medidas contra a disseminação do novo coronavírus, que provoca a covid-19, que começaram a partir de 12 de março, na Dinamarca”.

“Espera-se que as medidas e restrições muito extensas que foram adotadas contra a epidemia da covid-19 também tenham um efeito benéfico na propagação de outras doenças infecciosas, como influenza e outras infecções respiratórias. Mas o tamanho e a velocidade do efeito são um pouco surpreendentes”, diz Lasse Vestergaard.

Ele enfatiza, no entanto, que ainda é muito cedo para dizer qual será o efeito das medidas na disseminação da covid-19.

Ao mesmo tempo, segundo o instituto, houve um aumento no número de pacientes com sintomas semelhantes aos da gripe que buscaram atendimento médico.

“Isso poderia ser explicado por uma infecção real pelo coronavírus, que também causa sintomas semelhantes aos da gripe, e em parte provavelmente devido ao aumento da conscientização em relação à epidemia da covid-19.”

A Dinamarca foi um dos primeiros países europeus a adotar medidas extremas para combater a pandemia de coronavírus. Logo no início de março, o país proibiu aglomerações públicas com mais de dez pessoas, além de fechar escolas, restaurantes, cafés e salões de beleza.

Até agora, foram apenas 5 mil casos e cerca de 200 mortes.

Segundo a infectologista Rosana Richtmann, do Instituto paulista Emílio Ribas, “faz total sentido” a relação entre a queda no número de casos de gripe e as medidas de isolamento social por causa do coronavírus.

“Igual ao coronavírus, o vírus influenza também é por contato e por gotículas. Portanto, quando há isolamento social, é óbvio que se reduz o risco de exposição não só ao coronavírus, mas a todos os outros vírus respiratórios”, diz ela à BBC News Brasil.

Ela lembra que a gripe também afeta muito mais os idosos, grupo de risco para o novo coronavírus.

“Esse isolamento social, apesar de pagarmos um preço caro por ele do ponto de vista econômico e de relações humanas, deve diminuir com certeza a sobrecarga dos hospitais não só para a covid-19, mas para outros vírus respiratórios”, diz Richtmann, mas apenas se o isolamento social de fato for implementado e respeitado — o que não está acontecendo plenamente no Brasil.

“Possivelmente, o resultado será o mesmo em todos os locais que fizeram isolamento social”, acrescenta.

No ano passado, o Brasil registrou 5,8 mil casos e 1.122 mortes pelos três tipos de influenza.

Existe uma preocupação entre autoridades de saúde brasileiras sobre o risco de epidemias simultâneas junto com o coronavírus, o que pode elevar ainda mais a pressão sobre o sistema de saúde, gerando o que os especialistas descrevem como “tempestade perfeita”.

No fim de março, Wanderson Oliveira alertou que “teremos neste ano o coronavírus, a influenza e também o pico da dengue”.

A dengue não é uma doença de transmissão respiratória e é a que mais preocupa no momento.

Sete estados já apresentam incidência de dengue em patamar de epidemia, com mais de 300 casos a cada 100 mil habitantes: Paraná, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás, São Paulo, Acre e Distrito Federal.

“Aproveitem que estão em casa e limpem o quintal, eliminem focos de dengue e vacinem-se conforme o calendário”, acrescentou Oliveira na ocasião.