Entre novo emprego e exposição ao coronavírus: os dois lados da oferta de vagas na saúde

Enfermeira em hospital de Brasília; plataforma de classificados de empregos viu avanço de até 700% em vagas na área de enfermagem na comparação entre março de 2019 e 2020

REUTERS/ADRIANO MACHADO

“60 vagas enfermeiro com ou sem experiência, São Paulo.”

“Técnicos de enfermagem. Nós precisamos de vocês.”

“Contratação emergencial! Precisamos de médicos com urgência.”

Convocações como essas, encontradas em grupos no Facebook reunindo profissionais de saúde, são apenas alguns dos muitos anúncios que têm proliferado não só nas redes sociais, mas também em plataformas online de recrutamento divulgando novas vagas em hospitais privados, no atendimento prestado por associações beneficentes, e em unidades vinculadas a secretarias de Saúde municipais e estaduais pelo Brasil.

São instituições públicas e privadas de saúde correndo contra o tempo na preparação para a escalada de casos de coronavírus no país — número que já cresce a cada dia.

Ainda não há dados oficiais sobre um aparente aumento na oferta de trabalho para profissionais da saúde, mas entidades profissionais e empresas de recrutamento já veem sinais evidentes disso — em particular para certos cargos, como aqueles de atuação nas Unidades de Terapia Intensiva (UTI), que recebem os casos mais graves.

A pedido da BBC News Brasil, a Catho, site de classificado de empregos, constatou que, na comparação com o mesmo mês em 2019, março de 2020 teve um aumento de 281% no número de anúncios com novas vagas na área de saúde (um mesmo anúncio pode divulgar uma ou mais vagas). A empresa não divulga números absolutos, apenas porcentagens.

Por cargo, o maior avanço observado na plataforma foi para enfermeiro de UTI (718% na comparação com março de 2019), seguido de técnico de enfermagem (708%) e enfermeiro (397%).

A Catho reconhece que, na sua plataforma, a oferta de vagas para médicos não é tão expressiva.

Além dos classificados na Catho, a corrida por profissionais de saúde é exemplificada por anúncios de contratações por grandes hospitais, hospitais de campanha em instalação, prefeituras e governos estaduais em todo país.

Apenas nesta semana, foram divulgadas mais de 800 vagas temporárias na saúde pelo governo do Estado do Rio Grande do Norte; 270 pela prefeitura de Porto Velho (RO); entre outras.

Isto fora as mais de 5 mil vagas, com contratos de um ano, anunciadas pelo governo federal em março no âmbito do programa Mais Médicos, para o combate ao coronavírus.

Mais vagas para enfermeiros

O Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (Coren-SP) — Estado que teve os primeiros registros de coronavírus e hoje é o que tem mais casos e óbitos no país — também detectou em seus dados um grande aumento na demanda por profissionais da área no último mês.

De 11 a 31 de março deste ano, na comparação com o mesmo período do ano passado, o volume de pedidos de inscrições no conselho foi 49% maior — passando de 4.242 para 6.316.

O número de inscrições emitidas pelo conselho (quando o número de registro do profissional já foi emitido e ele está apto a exercer a profissão) foi 22% maior, saltando de 3.383 para 4.132 inscrições. O conselho atende a enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem.

Renata Pietro, presidente do Coren-SP, destaca que os profissionais de enfermagem compõem cerca de 70% da força de trabalho da saúde no país, então é esperado que sejam das funções com maiores demandas no cenário atual cenário de pandemia.

Diferente dos médicos, em que a contratação por prestação de serviço (como autônomo ou pessoa jurídica) é frequente, Pietro diz que profissionais de enfermagem tendem a ser contratados como celetistas — e, nas vagas emergenciais que se vê agora, há muitos contratos temporários do tipo RPA.

E, apesar de nos últimos anos a categoria ter se destacado em relação a outras na oferta de trabalho — foi a categoria de nível superior com mais contratações no primeiro trimestre de 2019, segundo a plataforma Quero Bolsa com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) —, isto está longe de indicar um ramo profissional sem problemas.

“Apesar de termos aparecido como a profissão com mais contratações nos últimos dois anos (em alguns trimestres específicos), há um subdimensionamento. As instituições tendem a trabalhar com um mínimo”, diz Renata Pietro, apontando também para o crescente número de faculdades e formados entrando no mercado.

“Precisamos de mais gente no mercado, e um cenário como esse (da pandemia) é uma oportunidade de fazer esse ajuste. A pandemia também pode contribuir ao dar aos recém-formados uma primeira oportunidade — muitos contratantes não estão nem perguntando se o candidato tem experiência.”

Em grupos de enfermeiros no Facebook, o mural tem ficado repleto de postagens de profissionais comemorando o primeiro emprego na área, a saída do desemprego ou o enriquecimento do currículo com a conquista dessas vagas emergenciais — ao lado também de comentários sobre a preocupação com a exposição à nova doença.