Sem trabalho, com fome e medo de ir ao médico: o drama dos brasileiros ilegais na quarentena em Londres

Às 21h56 de domingo (5 de abril), nove minutos antes do horário programado, decolava o último voo direto da companhia aérea Latam de Londres com destino a São Paulo.

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Mas seu retorno ao Brasil – mais especificamente ao interior de São Paulo, onde mora sua família – não foi uma decisão fácil. Para G., era o fim abrupto de um sonho, que teve início em agosto do ano passado, quando entrou no Reino Unido com um visto de turista – válido por seis meses. Seu objetivo, na verdade, não era visitar o país, mas sim trabalhar.

Assim como muitos brasileiros que vivem em Londres, G. estava ilegal. Não se sabe ao certo quantos brasileiros vivem ilegalmente no Reino Unido, mas estimativas apontam que até metade possa estar em situação irregular.

“Reconheço que fiz algo errado (imigrar ilegalmente). Mas no Brasil eu não vivia, eu sobrevivia. Não queria me envolver com coisa errada por lá. Vim pra cá buscando uma oportunidade para mim. Queria melhorar minha vida e da minha família no Brasil”, disse ele por telefone à BBC News Brasil no último sábado (4 de abril), um dia antes de embarcar.

Mas a realidade de G. mudou há cerca de um mês quando a pandemia de coronavírus se alastrou pelo mundo e chegou ao Reino Unido. Os “bicos” que eram frequentes começaram a rarear.

“Fazia muitas coisas. A maioria dos ilegais trabalha com o que muitos desprezam. Fazemos o serviço que a maioria não quer fazer. Pegamos qualquer tipo de trabalho. Entregamos comida, trabalhamos na construção, limpamos. O que sobra. Não dá para se dar ao luxo de escolher emprego nem patrão”, explica.

“Mas chegou um momento que não tinha mais o que comer. Me alimentava pouco em um dia para ter alimento no seguinte. Mesmo com toda essa dificuldade, não me veio à cabeça fazer coisa errada, vender drogas ou me prostituir, como alguns fazem”, ressalva.