Como medidas de isolamento contra coronavírus aumentaram popularidade do presidente da Argentina

Para analistas, o presidente Alberto Fernández melhorou sua imagem com o combate ao novo coronavírus

EPA

“É preciso ver como será a relação entre o criador e a criatura porque ela é mandona e foi ela quem lançou a candidatura dele”, comentou um embaixador de um país vizinho, no início deste ano.

Nos últimos dias, porém, a reação de Fernández contra o avanço do novo coronavírus no país fortaleceu sua liderança e aumentou sua popularidade, como apontaram analistas ouvidos pela BBC News Brasil.

Ele implementou uma quarentena rigorosa — chamada de “obrigatória e preventiva” — no dia 20 de março e já a prolongou duas vezes. A quarentena inclui patrulhas lideradas por ministros nas estradas e até, segundo reportagens locais, rastreamento dos movimentos de celulares de motoristas para que não desrespeitem o confinamento.

Na sexta-feira (10/04), de pé diante das câmeras de televisão e apontando para gráficos em um quadro, Fernández disse que a quarentena continuará até, pelo menos, o dia 26 deste mês.

‘Um martírio’

Fernández afirmou, sinalizando os números, que o país teria 45 mil casos da covid-19, doença provocada pelo novo coronavírus, e não os cerca de 1.900 registrados naquela sexta-feira, com 82 mortes, se não tivesse implementado a quarentena em março.

“Não quero nem pensar sobre de quantos mortos estaríamos falando (sem quarentena)”, disse, com a voz calma que já o caracteriza.

Neste ponto sobre o número de casos positivos para a doença existe um debate entre alguns infectologistas que dizem que para um dado mais exato seriam necessários testes em massa na população, algo de que os principais especialistas ouvidos pelo presidente discordam.

Em suas falas, quase diárias, o presidente argentino se refere à pandemia como “um martírio”, chama o coronavírus de “inimigo invisível” e diz que “é cedo” para dizer que o país venceu esta batalha.

“Essa é uma briga difícil contra um inimigo invisível que entra nos nossos corpos. E não sabemos quem tem ou não esse vírus e quem contagia os demais. Temos de nos proteger e a única maneira é ficar em casa”, disse. No domingo de Páscoa, foi ainda mais explícito.

“Prefiro ter 10% de pobres, mas não 100 mil mortes na Argentina (pelo coronavírus)”, disse. Fernández também tem repetido que uma economia que cai pode ser recuperada, mas uma vida perdida, não. Por isso, entende, “é falso” achar que existe “dilema” entre saúde e economia.