Demissão do diretor da PF: os bastidores da disputa que abalou relação entre Moro e Bolsonaro

Presidente da República exonerou Maurício Valeixo do comando da Polícia Federal

Adriano Machado/Reuters

A exoneração foi publicada no Diário Oficial da União (DOU) desta sexta-feira, 24 de abril.

Valeixo foi escolhido por Moro para o cargo e é considerado o braço-direito do ministro.

Na quinta-feira (23), o ex-juiz federal da operação Lava Jato teria apresentado ao presidente da República um pedido de demissão — o que no entanto acabou não se concretizando.

O pedido de demissão foi noticiado pelo jornal Folha de S. Paulo e depois confirmado por vários outros veículos de imprensa.

Questionada, a assessoria de imprensa de Sergio Moro disse apenas que o ministro “não confirma o pedido de demissão” — sem no entanto negar enfaticamente.

Antes de Moro e Bolsonaro comentarem o assunto, interlocutores dos dois falaram — e o tom das intervenções não foi amistoso.

De Curitiba (PR), o procurador aposentado e ex-coordenador da Força-Tarefa da Lava Jato, Carlos Fernando dos Santos Lima, disse que Moro deveria sim sair do governo.

“Bolsonaro não é correto, não tem palavra, deixou o ministro sem qualquer apoio no Congresso tanto nas medidas contra a corrupção quanto durante o episódio criminoso da Intercept (a série de reportagens conhecida como ‘Vaza Jato’), e nunca foi um real apoiador do combate à corrupção”, escreveu ele em sua página no Facebook.

Enquanto isso, um político que está próximo de Bolsonaro rompeu o silêncio e criticou abertamente Sergio Moro: para o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), Bolsonaro deveria trocar não só o comando da Polícia Federal, como também o ministro da Justiça.

O governador de Brasília questionou o desempenho de Moro na pasta em entrevistas a alguns veículos de imprensa na tarde de quinta-feira. “O que ele fez até hoje de concreto?”, perguntou o governador ao UOL.

“Moro nunca fez sequer um encontro para falar com os governadores sobre Segurança Pública. Ele não entende nada do assunto”, disse. “Se sair, já vai tarde”.

Ibaneis se reaproximou de Jair Bolsonaro depois que passou a defender a reabertura do comércio e o fim das políticas de isolamento social.

Segundo o jornal Valor Econômico, a gota d’água para o pedido de demissão de Moro teria sido uma reunião entre Bolsonaro e o emedebista, na quarta-feira (22).

A pauta principal do encontro teria sido a degola de Valeixo — Ibaneis teria proposto substituí-lo pelo atual secretário de segurança pública do DF, o também policial federal Anderson Torres.

Moro irritou-se por não ter sido informado diretamente a respeito da reunião. Ele só ficou sabendo do encontro porque um assessor seu o alertou para as tratativas entre Bolsonaro e Ibaneis, segundo a apuração do Valor Econômico.

Durante uma reunião na manhã de quarta-feira, Bolsonaro teria avisado Sergio Moro de que uma troca no comando da Polícia Federal aconteceria nos próximos dias.