Para cientista político, Bolsonaro pode sair politicamente enfraquecido da pandemia

O populismo de direita que cresceu como movimento político e chegou ao poder nos últimos anos em diversas partes do globo não tem dado uma resposta única à pandemia de covid-19.

AGÊNCIA BRASIL

O cientista político holandês Cas Mudde, que estuda há quase três décadas a ultradireita, identifica entre os políticos desse matiz desde uma abordagem “estereotipada” – negando a realidade e tentando difundir teorias conspiratórias sobre o novo coronavírus – até ações mais contundentes, ainda que tardias.

O presidente brasileiro, para ele, não se encaixa em um grupo específico. “Pelo que pude ver, quando se fala da resposta à covid-19 – ou à falta dela -, Bolsonaro tem uma categoria própria, como o líder de ultradireita mais ignorante e mais isolado do mundo”, diz o professor da Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos.

O pesquisador se refere em parte ao fato de Bolsonaro desobedecer deliberadamente as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) – ao sair para visitar estabelecimentos comerciais e cumprimentar apoiadores na rua, negando o risco que o novo coronavírus representa à saúde pública -, enquanto, em paralelo, enfrenta oposição dentro da própria administração, o que culminou com desavenças com os agora ex-ministros da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e da Justiça, Sergio Moro.

Em sua última obra, The Far Right Today (“A Ultradireita Hoje”, sem edição no Brasil), lançada no fim de 2019, Mudde fala sobre a mais recente ascensão do populismo de direita no mundo para o público não especializado no tema.

Ele divide a ultradireita (“far right”) em dois grandes grupos, a extrema direita (“extreme right”), que rejeita completamente a democracia, e a direita radical (“radical right”), que opera dentro das instituições democráticas, ainda que se coloque contra valores fundamentais desse sistema, como a separação de poderes e os direitos das minorias.

Bolsonaro faz, segundo ele, parte desse último grupo.

Cas Mudde – As diferentes respostas da utradireita se espalham por praticamente por todo o espectro de possibilidades. Desde negar completamente (o risco do novo coronavírus), como o presidente Bolsonaro no Brasil, ou minimizá-lo, como o presidente (dos Estados Unidos, Donald) Trump, a uma resposta tardia, porém contundente, como o primeiro-ministro Narendra Modi na Índia e Viktor Orbán na Hungria.

Há ainda aqueles que criticam os partidos de situação por tomarem medidas que consideram muito brandas, como as siglas de ultradireita na Holanda. (No país, partidos da direita radical como Fórum pela Democracia (FvD) e Partido pela Liberdade (PVV), que fazem oposição à coalizão de centro liderada pelo premiê Mark Rutte, têm defendido uma quarentena semelhante à adotada pela maioria dos países da Europa).