Forças Armadas não apoiarão ruptura da democracia com Jair Bolsonaro

Ex-ministros da defesa avaliam que Forças Armadas não estão dispostas a seguir presidente em caso de ruptura da democracia

AGÊNCIA BRASIL

No domingo (03/05), Bolsonaro voltou a saudar manifestantes em frente ao Palácio do Planalto, em Brasília, como já tinha feito no dia 15 de março.

Em faixas, cartazes e palavras de ordem, os manifestantes pediam de novo o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal (STF), além da edição de uma nova versão do Ato Institucional nº 5, o AI-5, que marcou o início da fase mais violenta da ditadura militar (1964-1985).

Ao discursar para os manifestantes, Bolsonaro disse que as Forças Armadas estavam com ele, e que ele não iria “admitir mais interferências” em seu governo – a fala era um recado ao ministro do STF Alexandre de Moraes, que na semana anterior revogou a nomeação do delegado Alexandre Ramagem para o posto de diretor-geral da PF, feita por Bolsonaro.

“Vocês sabem que o povo está conosco, as Forças Armadas – ao lado da lei, da ordem, da democracia e da liberdade – também estão ao nosso lado, e Deus acima de tudo”, disse o presidente da República.

“Vamos tocar o barco. Peço a Deus que não tenhamos problemas nessa semana. Porque chegamos no limite, não tem mais conversa. Tá ok? Daqui para frente, não só exigiremos, faremos cumprir a Constituição. Ela será cumprida a qualquer preço. E ela tem dupla mão. Não é de uma mão de um lado só não. Amanhã nomeamos novo diretor da PF”, continuou ele. Na segunda (04), Bolsonaro nomeou Rolando Alexandre de Souza para o comando da PF.

“Nós queremos o melhor para o nosso país. Queremos a independência verdadeira dos três Poderes e não apenas na letra da Constituição, não queremos isso. Chega de interferência. Não vamos admitir mais interferência. Acabou a paciência”, disse Bolsonaro.

Sem ‘aventura’

Para três ex-ministros da Defesa ouvidos pela reportagem da BBC News Brasil, as falas do presidente não batem com a disposição das Forças Armadas: a caserna já é parte orgânica do governo de Jair Bolsonaro, mas não endossará atitudes do presidente que representem uma ruptura formal do regime democrático em vigor no país desde 1985.

“As Forças Armadas têm absoluta consciência de que cumprem uma missão constitucional, nacional e social muito elevada para se deixarem envolver nas disputas políticas ou partidárias, que são passageiras”, afirmou à BBC News Brasil o ex-ministro Aldo Rebelo.

Para ele, não há possibilidade de “aventura à margem dos marcos constitucionais”. As Forças Armadas, disse, guardarão lealdade ao presidente em suas demandas, mas dentro dos limites que determina a Carta de 1988.

Rebelo comandou a pasta da Defesa entre outubro de 2015 e maio de 2016, no governo de Dilma Rousseff (PT). À época, ainda integrava os quadros do PCdoB, partido no qual construiu sua carreira política – em 2017, se desligou da legenda, ficou por um breve período no PSB e atualmente é filiado ao Solidariedade.

Ele acredita que as questões que levaram o presidente Bolsonaro a mencionar um suposto apoio das Forças Armadas a seu projeto são de natureza alheia à caserna.

“O presidente é um homem atormentado por razões que eu desconheço e lança mão desses destemperos criando uma confusão no país, mas creio que isso não terá maiores consequências, exceto para o próprio presidente, que poderá responder perante o STF e perante o Congresso pelas ilegalidades que tem cometido”, disse Rebelo.

Hoje senador pelo PT da Bahia, Jaques Wagner foi ministro da Defesa durante o ano de 2015, no governo da ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Segundo ele, as preocupações das Forças Armadas hoje são outras – e não há espaço para “aventuras”.