Judeus criticam o uso de sua bandeira em atos pró-Bolsonaro.

Em Brasília expôs um racha e gerou até preocupações sobre antissemitismo dentro da comunidade judaica brasileira

AP Photo/Eraldo Peres

Bolsonaro prestigiou o protesto da rampa do Palácio do Planalto. Bandeiras do Brasil e dos Estados Unidos também foram empunhadas por manifestantes.

Parte da comunidade judaica critica a presença frequente da bandeira de Israel em atos pró-Bolsonaro, pois teme que o uso do símbolo passe uma imagem de apoio incondicional dos judeus ao presidente. A preocupação é ainda mais forte agora, por causa do posicionamento de Bolsonaro sobre o combate à pandemia do coronavírus. O presidente vem minimizando os riscos da doença, enquanto o premiê israelense, Benjamin Netanyahu, de quem Bolsonaro é próximo e com o qual compartilha clara afinidade ideológica, decretou duras medidas de isolamento social – Israel foi um dos primeiros países a fechar fronteiras e promover o confinamento de sua população.

Há ainda outro importante elemento que não deve ser ignorado, segundo uma fonte afirmou à BBC News Brasil: o temor com o antissemitismo, que vem crescendo no mundo. Episódios de violência contra judeus têm sido registrados em vários países. Sendo assim, a associação da bandeira de Israel a manifestações com forte coloração ideológica em um ambiente político já altamente polarizado poderia se tornar combustível para ataques de ódio contra integrantes da comunidade.

Em nota divulgada na última segunda-feira (4 de maio), a Confederação Israelita do Brasil (Conib) fez um alerta sobre o uso de bandeiras de Israel em manifestações.

“A comunidade judaica brasileira é plural. Há judeus e judias em todos os campos do espectro político, da direita à esquerda, de centro, apoiadores e opositores do governo. Também entre apoiadores de Israel há uma grande diversidade. O uso constante de bandeiras de Israel, em manifestações como as de ontem (domingo), pode passar uma mensagem errada sobre a composição pluralista da comunidade judaica brasileira e representar de maneira equivocada nossa posição em relação à agenda dos manifestantes e do governo”, diz o comunicado, assinado por Fernando Lottenberg, presidente da entidade.

“A Conib tem um firme compromisso com a democracia e com as liberdades públicas e lamenta a presença de bandeiras de Israel, uma democracia vibrante, em atos em que ocorrem ataques às instituições democráticas”, acrescenta a nota.

Para o Instituto Brasil-Israel, “o governo brasileiro e os setores que ainda o apoiam têm feito uso dessas bandeiras, mas elas não pertencem a eles”. No Twitter, a entidade lembrou que a bandeira de Israel não aparece apenas nos protestos favoráveis ao governo. O símbolo também foi usado em manifestações contrárias a Bolsonaro, incluindo o movimento conhecido como #EleNão.

Já o grupo Judeus pela Democracia, que reúne judeus de esquerda no Brasil, afirmou nas redes sociais que “a bandeira de Israel numa manifestação contra a democracia não representa os valores judaicos”.

“Que patriotismo é esse que tremula bandeiras e ignora milhares de mortos? Basta do sequestro de símbolos nacionais!”, publicou o grupo no Facebook.

“Não vejo nenhum motivo para ser prejudicial (uso da bandeira). Pelo contrário. A gente nunca viu tanta bandeira de Israel aparecer em um governo como o de Bolsonaro, independentemente de acertos e erros dele. Não estou julgando as atitudes do presidente; me refiro estritamente ao uso da bandeira. Para um judeu, é sempre bem-vindo, um motivo de alegria saber que tem gente com a gente, nos apoiando, seja cristão, evangélico ou judeu, seja o que for”, diz ele à BBC News Brasil.

Em 2017, Mairovitch convidou Bolsonaro, na época deputado federal e já autodeclarado pré-candidato à Presidência, para fazer uma palestra no clube, fechada a convidados. Bolsonaro havia sido vetado em evento similar no clube de São Paulo. Grupos favoráveis e contra o atual presidente chegaram a criar abaixo-assinado na internet para defender e condenar a iniciativa. Do lado de fora, 150 pessoas, muitas das quais judeus mais progressistas, protestaram.

Durante o evento, que lotou o auditório do clube, com capacidade para 500 pessoas, Bolsonaro fez declarações controversas, ao afirmar que quem tem “cinco filhos, quatro são homens, no quinto eu dei uma fraquejada, veio uma mulher”. Também criticou a presença de refugiados no país e disse que quilombola “não serve nem para procriar”.

“Nós somos a maioria, acreditamos em Deus. A cultura judaico-cristã está em nosso meio”, afirmou.

Foi aplaudido várias vezes e chamado de “mito”.