Trump tem menos de 6 meses para arranjar novo discurso de campanha

Donald Trump, em sua conta de Twitter, no último dia 4, a menos de seis meses da eleição presidencial de novembro, na qual tentará ser reconduzido à Casa Branca.

REUTERS/Jonathan Ernst

O autoelogio em tom aliviado é um indicativo das aflições que atormentarão Trump nos próximos meses. Os Estados Unidos têm o maior número de casos e mortes por covid-19 do mundo, e o republicano teme que sua performance no combate à epidemia, que já levou à pior recessão americana no século, com 30 milhões de desempregados, possa abater sua candidatura.

Até março, quando os Estados Unidos começaram a ver o número de doentes crescer vertiginosamente, ele minimizava o problema e atribuía aos adversários políticos o alarme com o coronavírus.

Trump tinha a seu favor uma economia com crescimento estável e em situação de pleno emprego. Em janeiro, se desvencilhara de um processo de impeachment ao mesmo tempo em que acirrava as tensões com o Irã, no Oriente Médio, e colhia o resultado de um novo acordo de comércio com México e Canadá e um cessar fogo na guerra comercial com a China – temas populares entre seus apoiadores.

Até que o coronavírus, que Trump reputava menos grave do que uma gripe comum, mostrou seu potencial destruidor. De acordo com a avaliação de epidemiologistas, a doença pegou os Estados Unidos despreparados para fazer testagem em massa, rastrear os casos e isolar os doentes. Até 8 de maio, o país registrava cerca de 75 mil mortos e 1,2 milhão de infectados.

“Nos últimos 3 meses, as chances de Trump se reeleger diminuíram. Primeiro porque, até fevereiro, ele planejava fazer uma campanha centrada nos bons resultados da economia, e isso se perdeu completamente. Segundo porque os resultados até agora sugerem uma má gestão da crise de saúde pública, ele não estava preparado”, afirma o cientista político Jonathan Hanson, da Universidade de Michigan.

Trump não ficou parado diante do derretimento de seu plano inicial de campanha. Ele adotou diferentes estratégias para tentar melhorar a percepção dos eleitores sobre seu trabalho.

A mais visível delas foi assumir, literalmente, o centro do palco e promover por mais de seis semanas conferências de imprensa diárias sobre os esforços do governo no combate ao coronavírus, transmitidas ao vivo pela internet e pela televisão.

Trump, que tem experiência como apresentador de reality show, fazia as vezes de um anfitrião em um programa de convidados, em que sucessivos especialistas da gestão – especialmente os médicos e pesquisadores da força-tarefa contra o vírus – explicavam as ações federais.

“Ver o presidente ir a público demonstrar que tem um plano e que pode coordenar os trabalhos é certamente algo que agradaria aos americanos”, diz Hanson.

As sessões, no entanto, começaram a ficar cada vez mais longas (algumas duraram duas horas), os conflitos com a imprensa se multiplicaram (Trump chegou a dizer à repórter da rede CNN que não comentaria sua pergunta porque ela era “fake news”) e o republicano acumulou declarações polêmicas, que acabavam desmentidas rapidamente, como a promessa de uma vacina em poucos meses ou de reabertura das atividades econômicas na Páscoa, o que não aconteceu.

Trump usou ainda as sessões de imprensa para culpar a China pela falta de informações sobre a periculosidade do vírus e adotou a expressão “vírus chinês” para se referir ao SARS-Cov-2. Também passou a tratar a Organização Mundial da Saúde (OMS) como responsável pela tragédia global, acusando a instituição de ser conivente com a falta de transparência chinesa. A estratégia servia ao mesmo tempo para retirar de si a culpa pela situação americana e para reafirmar o antagonismo em relação seu principal inimigo no jogo geopolítico.

“Esses eventos viraram uma espécie de comícios eleitorais em vez de transmissão de informação. E ele passou a promover potenciais tratamentos bizarros, nenhum comprovado. Em vez de torná-lo mais popular, as sessões começaram a gerar atenção negativa”, afirma o cientista político William Winecoff, da Universidade Indiana.

Trump resistia a interromper as apresentações, apesar da pressão de republicanos no Congresso, que temiam que suas performances pudessem causar prejuízo nas campanhas para as eleições legislativas, também em novembro. O fim das transmissões se tornou inevitável depois que, no último dia 24, Trump sugeriu que injeções de desinfetante poderiam ser eficazes no combate ao coronavírus. As reações foram péssimas. Três dias depois do episódio, ele afirmou que suspenderia as conferências, porque elas “não valem o tempo e o esforço”.

A julgar pelas pesquisas de popularidade, o republicano tem razão. Embora uma pesquisa do Intituto Gallup tenha indicado um ganho inicial de 5 pontos percentuais em aprovação (49%) em março, a pesquisa seguinte não sustentou a taxa, que ficou em 43%.

Em um compilado das pesquisas feita pelo site FiveThirtyEight, sua taxa de aprovação variou de 42% para 43% nas seis semanas em que ele manteve pronunciamentos diários. Situação muito diferente da de líderes europeus como a alemã Angela Merkel e o francês Emmanuel Macron, cuja aprovação cresceu 11 e 22 pontos percentuais, respectivamente.

“Na verdade, ao longo de todo o mandato, Trump manteve um nível de 40% de apoio, esse é aparentemente o piso dele. Qualquer outro presidente que dissesse qualquer um dos absurdos que Trump disse, teria visto o apoio ruir em meio ao escândalo. Isso não acontece com os apoiadores do Trump. No entanto, se pode contar com esse público, também é verdade que ele jamais convenceu a maioria dos americanos”, diz Hanson.

Menos popular que os governadores

Em resumo, a performance de Trump até o momento tem sido muito mais aprovada pelos eleitores republicanos (83,3% se dizem satisfeitos com sua gestão da crise), do que por democratas (13,4% de aprovação) e independentes (39,1% de apoio).

Se usar a imagem de líder gestor, culpar a China e apresentar soluções mágicas não pareceu comover ninguém além de sua já cativa audiência, Trump sabe que precisará oferecer mais para atrair as simpatias dos eleitores indecisos. E a resposta parece estar menos na questão da saúde pública, que preocupa cerca de 67% da população, e mais na condução da economia durante a epidemia, preocupação de 87% dos americanos.

“Trump parece acreditar que sua melhor chance de reeleição depende de retomar a economia, mesmo que isso leve a muito mais mortes. Mas é duvidoso que a economia melhore substancialmente no curto prazo, e, quando a economia vai mal em um ano eleitoral, isso geralmente é uma péssima notícia para o presidente que tenta reeleição”, afirma Winecoff.