Dúvidas que pairam sobre como Weintraub entrou nos EUA e o cargo no Banco Mundial

Weintraub deixou o país menos de 48 horas após anunciar que deixava o MEC

Lula Marques/Forum

Pouco tempo depois, ele avisava aos 900 mil seguidores que já estava em Miami, nos Estados Unidos.

A retirada relâmpago de Weintraub do país, menos de 48 horas após anunciar que deixava o MEC, na esteira de uma crise política detonada depois que veio a público uma exaltada fala sua em reunião ministerial em que pedia a prisão dos “vagabundos do STF”, chamou atenção não só porque ele dissera que passaria os próximos dias em processo de transição de comando no MEC, mas porque diante de uma ampla restrição de entrada nos Estados Unidos imposta a viajantes oriundos do Brasil por conta da escalada da pandemia de coronavírus, ele tenha conseguido estar em solo americano de modo tão rápido.

Desde o dia 24 de maio, as autoridades americanas impedem o ingresso no país de qualquer pessoa que tenha estado no Brasil em algum momento ao longo dos 14 dias anteriores à viagem.

De acordo com a ordem, assinada pelo presidente americano Donald Trump, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) verificou que havia “transmissão generalizada” de coronavírus entre a população brasileira, o que representaria “risco para a segurança nacional”.

Atualmente, o país contabiliza mais de 51 mil mortos e de 1 milhão de casos de covid-19. Dessa forma, apenas cidadãos americanos e estrangeiros com vistos de autoridade vindos do Brasil poderiam entrar no país.

Indicado pelo Planalto a uma vaga como diretor-executivo no Banco Mundial, cuja sede é na capital americana, Washington D.C., Weintraub afirmou repetidas vezes que queria sair do país porque ele e sua família estariam sofrendo ameaças no Brasil – sem apresentar provas disso.

No domingo dia 14, ele circulou publicamente pelo acampamento dos “300 do Brasil”, grupo que na noite anterior havia atacado o prédio do Supremo Tribunal Federal (STF) com fogos e é investigado por suspeita de ser uma organização paramilitar.

Na ocasião, Weintraub, que não usava máscara e foi multado em R$ 2 mil por infringir as medidas do Distrito Federal para proteção da saúde pública, endossou suas críticas aos ministros do Supremo. Ali, teria selado seu destino fora do governo Bolsonaro.

Ele também enfrenta no STF um inquérito por racismo – depois de publicar mensagem em que se referia pejorativamente ao suposto sotaque de asiáticos.

O próprio Weintraub passou a compartilhar em suas redes sociais, com alarde, notícias veiculadas na imprensa de que um pedido de prisão contra ele poderia ser decretado em breve, fato que teria contribuído para que o Planalto o indicasse para um cargo no exterior.

Se brasileiros não podem entrar nos EUA, como Weintraub conseguiu?

Segundo a assessoria de imprensa do Banco Mundial disse em nota à BBC, Weintraub ainda não é funcionário da instituição. O processo de escolha dele depende da anuência de representantes de outros oito países, que se expressam na cúpula de diretores do banco via representante brasileiro.

Nunca um nome brasileiro foi recusado e é improvável que isso venha a acontecer agora, a despeito da polêmica em torno da indicação. A chancela ao nome de Weintraub, no entanto, pode ainda levar quatro semanas para ser finalizada.

Até a confirmação, ele não faz jus ao visto de tipo G, concedido a cidadãos que representam seus países em órgãos internacionais, como o próprio Banco Mundial ou a Organização das Nações Unidas, sediadas nos Estados Unidos.

Logo, Weintraub ainda não dispõe do visto G, com o qual poderia entrar nos Estados Unidos.