“Identidade cultural é fator para durabilidade de políticas públicas”, diz convidado de live do IPCCIC

O encontro online contou com o secretário municipal da saúde de Afogados da Ingazeira, em Pernambuco, Artur Amorim

6

O Instituto Paulista de Cidades Criativas e Identidades Culturais (IPCCIC) fez sua primeira transmissão ao vivo pela internet nesta quarta-feira (23) e apresentou uma faceta do projeto “Jornada Cidade Humana Hoje – Seis passos para a cidade humana”. Transmitida pelo Instagram do Instituto, das 19h às 20h, o tema retratado foi “Identidade Cultural e Saúde Pública” e teve como convidado o secretário da saúde de Afogados da Ingazeira – PE, Artur Amorim, e mediação da presidente do IPCCIC, Lilian Rosa.

Artur Amorim é enfermeiro, especialista em saúde coletiva e em regulação no SUS. Militante na área de planejamento de saúde desde 2011, fez parte da equipe que prestava assessoria para o Ministério da Saúde no município de Goiana-PE. Sua atuação recente na cidade de Afogados da Ingazeira chamou a atenção do IPCCIC em 2019, quando o Instituto realizava uma pesquisa sobre práticas exitosas na área de políticas públicas municipais em 400 municípios brasileiros – entre eles, Afogados da Ingazeira, no sertão de Pajeú.

“Trata-se de um município que desenvolve várias práticas no campo da gestão das políticas públicas, valorizando as identidades culturais. Separamos o caso da Secretaria de Saúde da cidade, pois o Artur Amorim desenvolveu um projeto interessante sobre a farmácia fitoterápica”, comenta Lilian.

Foi sobre esse projeto que a presidente do IPCCIC e Artur Amorim conversaram em boa parte da live. “Esse foi um trabalho de muitas mãos”, conta ele, falando sobre uma cartilha em que estão catalogadas 42 espécies de plantas medicinais características do bioma caatinga. O secretário disse que o trabalho integrado contou com ajuda da Universidade Federal de Pernambuco, da Federação dos Trabalhadores Rurais de Pernambuco (FETAPE), de lideranças comunitárias, de igrejas católicas, do Conselho Municipal de Saúde, do Centro Nordestino de Medicina Popular, da Secretaria de Educação e de moradores locais que têm expertise em lidar com plantas medicinais.

“O projeto teve participação de muitos agentes comunitários de saúde e, com isso, conseguimos construir uma cartilha que representasse mesmo a comunidade”, afirmou o secretário. A cartilha, que reúne plantas realmente disponíveis no sertão nordestino, tem o intuito de servir futuramente como guia a ser integrado pelo Sistema Único de Saúde (SUS). “Ela ficou pronta com esse arcabouço de variedade de plantas existentes aqui na nossa região, e nasceu não só para o uso e conhecimento das plantas medicinais daqui, mas também para valorizarmos essas lideranças locais”. A partir dela, também foi instalada uma farmácia na cidade, para distribuição gratuita de remédios fitoterápicos   para a população.

Amorim contou, durante o encontro online que, com uma conversa constante com centros de pesquisa próximos, esse grande grupo de pessoas conseguiu aplicar uso de estatística dentro do processo de categorização das plantas. “Começamos a transformar a sabedoria popular em ciência, com ajuda das universidades e de uma bióloga que tem muita expertise nesse assunto e estava sempre conosco”, conta ele.

Para o secretário, construir o projeto em conjunto com a população é a maneira ideal para que as políticas públicas sejam de fato duradouras: “Realizar os projetos a partir da escuta qualificada, com participação de atores da sociedade no manejo de plantas, tem uma probabilidade muito maior de êxito, porque as pessoas realmente fazem parte do processo”. Para Amorim, fazer política pública resgatando a identidade cultural tem   uma probabilidade de sustentabilidade muito grande, já que ela se identifica com os viveres cotidianos das pessoas.

“Para que as políticas não sejam evaporadas de uma gestão para outra, essa participação é importante. E a gente espera que outras pessoas levem a experiência para frente, continuando a produzir remédios fitoterápicos e transformando uma cadeia produtiva na cidade”.

Por último, Lilian Rosa questionou o convidado do IPCCIC sobre quais etapas um município deve seguir para realizar um projeto como esse. E Amorim respondeu de imediato que, em primeiro lugar, é preciso saber observar potencialidades. “A gestão precisa ter essa sensibilidade para entender e identificar o potencial que as pessoas têm e como podem ajudar nesse processo”. Em segundo lugar, para ele, está a ligação da sabedoria popular com a ciência. E, por último, a articulação dos municípios com a área do cultivo (sindicato rural, pastorais) – com cidadãos que tenham conhecimento de plantas medicinais. “Muitas vezes temos pessoas com a solução para o nosso projeto logo ao lado, mas não conversamos com elas”, refletiu.