“Até hoje nos cobram deveres e esquecem que somos detentores de direitos”, afirmou Renata Sangoranti em live

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A Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto promoveu um encontro, na última sexta-feira (6/11), em parceria com o Centro Cultural Orunmila (CCO), em mais uma atividade do projeto “40tena Cultural”. Transmitida a partir das 19h, pelo aplicativo Zoom e também pelo site oficial da Fundação, a conversa foi mediada pela presidente interina da instituição, Adriana Silva, e teve como convidados Babá Paulo Ifatide Ifamoroti, Mãe Neide, Renata Sangoranti, Silas Nogueira e Rudah Felipe. O bate-papo abriu as portas para um debate sobre resistência, movimento negro, transformação, ancestralidade, expressões culturais diversas e muito mais.

O Centro Cultural Orunmila foi fundado em Ribeirão Preto em 1994, tendo suas raízes na comunidade religiosa Egbe Awo Ase Iya Mesan Orun (Culto à tradição mãe dos nove mundos), que já existia desde 1983. Ele nasceu da necessidade da preservação e promoção da cultura negra, e atua como um instrumento de combate ao racismo ao promover a cidadania das populações negras e periféricas. Nestes 26 anos de atuação ininterrupta, oferece oficinas, seminários e cursos de formação, teóricos e práticos – como percussão, dança afro, culinária, indumentárias, capoeira, hip hop, construção de tambores, história, cultura e idioma yorubá – e é também o criador e mantenedor do Afoxé Omo Orùnmilá e da Biblioteca Temática Ile Lati Ede Dudu.

 Babá Paulo Ifatide Ifamoroti, que estava presente na conversa online, é estudioso da língua yorubá e fundador do Centro, tendo acompanhado a iniciativa desde que ela deu seus primeiros passos. Ele contou que a ideia do Centro sempre esteve muito atrelada à valorização da cultura negra e ao combate ao racismo. “Eu sempre fui ativista do movimento negro e sempre tive a percepção da importância de fazer o combate ao racismo através da cultura”, afirmou. Babá Paulo (ou “Pai Paulo”, como também é chamado) concebe o movimento negro em duas partes: a luta por ações afirmativas e o combate ao racismo.

Abordando a questão do racismo, logo no início da conversa, ele disse que é importante entender no que consiste essa forma de discriminação e de que forma ela foi construída. “O racismo existe desde 1454, quando o Papa Nicolau V, através de uma bula, autorizou o tráfico de africanos para as Américas, gerando um desconforto na Igreja Católica. Os europeus passaram a se perguntar então como iam escravizar negros? A resposta que encontraram foi coisificar essas pessoas. Mas como é que se coisifica um portador de cultura?”, questiona.

Babá Paulo afirmou que a violência dessa lógica ainda perpassa os dias de hoje e traz dados que o comprovam: no Brasil, morre um jovem negro a cada 23 minutos, assassinado majoritariamente pelas forças policiais. “Por causa dessa realidade, nós decidimos fundar o Centro como combate ao racismo, contra essa visão hegemônica. Não era fácil e não é fácil até hoje, porque somos taxados como violentos: não percebem a violência que vem de falas que ofendem profundamente os negros. Orunmila tem se prestado a isso: a falar sobre, denunciar e ser coerente com a nossa proposta”.

Para manter um centro por tantos anos, Babá Paulo diz que foi preciso muita resiliência na luta e que muitas parcerias foram traçadas Brasil afora. “Orunmila é uma entidade reconhecida nacionalmente hoje graças a um trabalho que fizemos no Conselho Nacional de Cultura e em várias instituições pelo país”, conta.

Neide Ribeiro, conhecida como Mãe Neide, também está presente desde a criação da comunidade Egbe Awo Ase Iya Mesan Orun, que depois deu origem ao Centro Cultural Orunmila. Ela falou especialmente do impacto que o Centro conseguiu deixar nos 26 anos em que esteve ativo. “Hoje com tantos anos de lutas, sou feliz por ter passado um pouco da nossa cultura e ter condição de ter visibilidade. Nós conseguimos falar do que é Axé e Afoxé através de todas as atividades que fizemos aqui”, afirma.

Mãe Neide conta que tem muitas lembranças dos jovens que passaram pelo Centro e fica feliz de vê-los encaminhados. ”Encontro crianças por aqui que fazem capoeira, percussão e dizem: ‘eu ia no Centro desde criança, aprendi muito lá’. Isso é muito gratificante. E aqui sempre foi muito difícil, mas conseguimos colocar nossa cultura, mostrar que fazemos parte e queremos ser respeitados”. Para que isso fosse possível, Neide fala de resistência, e de como foi preciso todo um pessoal para se ter força de continuar. “Ainda falta muito, mas também é muito grande a ideia de que, ao longo de todos esses anos, conseguimos despertar o fato de que nossa cultura existe e precisa ser respeitada. São 6 mil anos de tradição. Isso me faz ter muita coragem, muita força, e agradecer por todos eles. Todos que passaram por aqui”.

Renata Sangoranti, que é coordenadora do projeto, nasceu dentro do Orunmila, e diz que falar dele é o mesmo que falar de sua própria existência. “Eu sou filha desses dois baluartes [Pai Paulo e Mãe Neide] que todo mundo está vendo aí. É um privilégio para mim porque há muitos jovens negros que não têm a oportunidade de ver de perto essa cultura. E para nós que viemos de outra geração, é importante ter contato com os nossos ancestrais”, afirma ela.

Rudah Felipe, que também compõe o projeto, é mestre da bateria e compositor do bloco carnavalesco Afoxé desde 2002 – sobre o bloco, Mãe Neide disse que “26 anos de Afoxé significou colocar o candomblé de rua ”. Hoje, Rudah realiza oficinas de percussão no Centro Cultural, mas ele veio de São Paulo. “Cresci numa escola de samba, Águia de Ouro e tive minha formação como musicista dentro dessa tradição. Foi através da minha vivência do Orunmila que pude ter contato com vários nomes importantes da música negra na esfera nacional. Isso me ajudou a me conectar com essa consciência e sabedoria ancestral”, contou.
O último integrante da live, Silas Nogueira, também compõe o Centro e relata que chegou até lá no final dos anos 90. “Esse encontro foi muito significativo, porque ali eu encontrei uma fonte de conhecimento muito mais sedutora e interessante daquilo que existia na Academia, e com sacerdotes muito ricos. E percebi também que quem participa do Centro faz política muito além do formato partidário”.

Proposta de parceria
A presidente interina da Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto, Adriana Silva, lamentou que a instituição tenha ficado distante do Centro Cultural Orunmila por tantos anos e brincou: “A Fundação está pedindo o Orunmila em casamento, para essa parceria se estender por muito tempo ainda”.

Depois da rodada de apresentações, a mediadora da conversa também instigou os participantes a discutirem sobre assuntos como representatividade, resistência e maneiras de se expressar culturalmente. Dentre essas maneiras, a presidente apontou a própria língua como uma fonte importante de resistência. Babá Paulo concordou com a abordagem. “A língua é o que dá a identidade cultural a qualquer grupo humano. Nós chegamos aqui com nomes africanos e fomos batizados com ‘João, Maria, José’. Isso é fundamental”. Paulo tem trazido africanos para dar aula de iorubá, fortalecendo o grupo com essas informações.

Ele ainda teceu uma crítica à Lei 10.639, que torna obrigatório o ensino de “História e Cultura Afro-Brasileira e Africana” nas escolas brasileiras: “Temos uma preocupação com isso, porque quem sabe contar essa História não está na Academia, e isso cria um ´problemaço`, porque a Academia não se rende a essas outras concepções de saber”.

Para além da Academia, também existe um problema com as próprias forças governamentais. Mãe Neide lembrou que o Centro não conta com verba pública, nem com o compromisso do Estado: “fazemos tudo na raça”. Renata Sangoranti concordou com essa visão. Segundo ela, houve várias oportunidades e vontades que o Orunmila perdeu porque “faltou vontade política”. “Tivemos que começar sempre a discussão de novo a cada nova gestão que se colocava no poder”, conta ela.

Como jovem, Renata afirma que é de uma geração que tenta transformar aquilo de destrutivo que gerações anteriores construíram. “É um trabalho muito árduo, mas as coisas estão mudando. Nós encontramos dificuldades em nos conectar com algumas famílias negras por causa dessa onda massificante evangélica, mas sempre continuamos tentando conscientizar nosso povo e tentando quebrar essa barreira criada pela massificação”.

Debate sobre educação
Babá Paulo lembrou: “qualquer branco que queira combater racismo, tem que conhecer seu lugar de privilegiado pela branquitude, para começar a conversa”. Para ele, é preciso destruir alguns conceitos eurocêntricos que carregamos, já que “por trás de cada palavra criada pelo Ocidente, encontram-se milhares de mortes”. E, para isso, é importante romper uma barreira imposta na própria educação. “Existe uma dificuldade do branco de levar essa criação para a escola por causa de uma ignorância e soberba. E nisso, as crianças negras ficam sabendo de negros somente a partir da escravidão, do negro escravo”.

Renata Sangoranti também comentou sobre o impacto que as mídias causam na criação de meninas e meninos negros, uma vez que sempre falta representatividade em meios como a televisão. “Eu venho de uma geração em que as referências que a gente tinha eram a Xuxa, Angélica ou a Eliana: mulheres brancas, loiras e magras. Então, costumo dizer que tenho privilégio de ter nascido num berço de cultura negra e acessar essas informações. Mas, ainda assim, ainda era muito afetada por essas referências da TV”, contou. Ela reforçou que, se para ela, que cresceu no Centro Cultural Orunmila, esse papel da mídia já era impactante, “quiçá as demais meninas que estão totalmente distantes dessa realidade”.
Ela relembrou o processo de escravização pelo qual o povo negro passou e como o racismo é resultado dele. “Até hoje nos cobram deveres e esquecem que somos detentores de direitos”. Renata disse que a mídia sempre viabiliza imagens de negros como os “jogadores de futebol” ou “pagodeiros” e que isso gera distorções. “A questão é enxergar o negro e o papel do negro em todas as intâncias de poder. Estamos perto das eleições e convido as pessoas a pensarem em quem são seus candidatos e se eles têm pautas que falam dessas questões”. Ela aproveita também para divulgar que, na segunda-feira (9), às 19h30, o Centro Cultural Orunmila receberá em sua sede candidatos que tratam de pautas raciais.
Para finalizar a live, o musicista Rudah Felipe cantou um trecho da “Louvação à Oxalá”, uma das músicas-tema do grupo Afoxé Omo Orùnmilá, que carrega críticas à discriminação racial.
Confira letra abaixo:
“Eu vou cantar pro meu pai
baba Oxalá
tocar tambor eu sou da nação
Afoxé Orùnmilá
Oxalá, sua pureza impera
Oxalá, Orixa FunFun
Oxalá, nós somos da paz
Oxalá, A Irê Baba, Oxalá
Oxalá criou a terra
gerou a humanidade
nos cubra com seu Alá
nos traga prosperidade”

40 tena cultural
A Fundação do Livro e Leitura de RIbeirão Preto é a principal responsável pela realização da Feira Nacional do Livro, a segunda maior feira a céu aberto do país. Em decorrência da pandemia do coronavírus, as atividades de sua primeira edição Internacional tiveram de ser adiadas para 2021. Com isso, a Fundação tem propiciado diversos encontros em plataformas digitais para que as atividades culturais não deixem de estar presentes, na chamada “40tena cultural”.
O projeto também tem como proposta incentivar as pessoas a ficarem em casa durante o período de isolamento social. Semanalmente são divulgadas atividades que abrangem desde as transmissões ao vivo com artistas e convidados até contação de histórias para crianças, show, dicas e discussões de livros. O cardápio de eventos é bem diversificado e usa tecnologias diferentes, mas todas com acesso fácil.
Para a diretoria da Fundação do Livro e Leitura, em todo este tempo de quarentena, a principal busca tem sido focada na continuidade das atividades promovidas, de maneira a assegurar os valores do DNA da instituição. A 40tena Cultural possibilitou à toda equipe da instituição continuar seu trabalho em home-office numa operação estruturada dentro dos protocolos da OMS (Organização Mundial de Saúde) e das autoridades brasileiras, em nível federal, estadual e municipal.

Como acessar a agenda cultural
A 40tena Cultural está sendo divulgada semanalmente nas redes sociais da Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto. Para participar, basta acessar os endereços online da instituição.
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