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‘Viver é uma utopia, porque não temos a menor ideia do que vai nos acontecer no próximo segundo’, comenta Maria Adélia de Souza

“O mundo é formado não apenas pelo que já existe, mas pelo que pode efetivamente existir”, com frases como esta, do geógrafo brasileiro Milton Santos, a professora e geógrafa Maria Adélia de Souza norteou sua fala no último painel do Revolução Poética: Festival de Ideias, com o tema “Por uma outra globalização – Entre utopias e distopias”. Para participar da discussão, foram convidados o professor e escritor João Flávio de Almeida, o músico e produtor cultural Leser MC – que fez uma apresentação artística antes do debate –, e Mikael Alerrandro, jovem participante do projeto NAU, uma iniciativa do Instituto SEB para apoiar a juventude na conquista de um emprego. O debate foi conduzido pela mestre de cerimônias, Adriana Silva, curadora e vice-presidente da Fundação do Livro de Ribeirão Preto, organizadora do evento.

O debate contou com a participação da professora Maria Adélia remotamente, através da plataforma de reuniões Zoom. Já os outros debatedores e a mestre de cerimônias participaram presencialmente no Instituto SEB – A Fábrica, seguindo todos os protocolos de saúde e segurança orientados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e Secretaria Municipal da Saúde.
Antes de iniciar sua participação no Revolução Poética, a professora revelou ter assistido aos painéis anteriores ao dela e que era uma honra poder falar sobre Milton Santos. Segundo Maria Adélia, o geógrafo se esforçou para entender, a partir do espaço geográfico, o funcionamento do mundo para, desse ponto, construir um método de trabalho que demonstrasse como ele é, ou seja, um mundo desigual. “O professor Milton vai propor que a geografia seja entendida como uma filosofia da técnica”, destacou a professora.

Utilizando uma obra do geógrafo, “Por uma outra globalização”, Maria Adélia dividiu sua participação em seis tópicos. Primeiramente, abordando a importância do livro, escrito em 2000 e com uma atualidade certeira. “Todo aquele que pretende ser um intelectual, forçosamente tem de lidar com o futuro. E o Milton propõe que o estudo geográfico, ao invés de discutir paisagens mortas e paradas, fosse o futuro”, relata a geógrafa. Ela ainda questionou se a vida não seria a maior das utopias. “Viver é uma utopia, porque não temos a menor ideia do que vai nos acontecer no próximo segundo”, disse.

‘A produção da globalização’
Na primeira parte do livro, “A produção da globalização”, o autor explica que essa é pouco explicitada na literatura pedagógica. Nesta ótica, a globalização só é possível por aquilo que Santos chama de “unicidade técnica do planeta”, por conta da convergência dos momentos. Também aborda a possibilidade que ela traz de fazer acionar um motor único de extração da mais-valia dos pobres do mundo. “Por isso que estamos padecendo hoje, em como resolver, estudar, entender e achar ideias para superar os problemas que a pandemia nos traz, não só no número de mortos e contaminados, mas no futuro que ela já está plantando”, avaliou Maria Adélia.

‘A globalização perversa’
Já no segundo capítulo, “A globalização perversa”, Milton Santos aborda toda a atrocidade que dela resulta. A geógrafa ainda cita que entre os países no sul do planeta, isso fica ainda mais evidente. “Primeiro que há uma tirania da informação, ela não se distribui igualmente para todos. Ela ainda disse que a globalização vai reforçar e acelerar ao máximo a questão da competitividade, reconfigurando as mentes para que seja difundida a violência estrutural, como a escravidão. “Portanto, essa globalização e todos os seus atributos, como o empobrecimento das pessoas e de todas as classes, exceto os mais ricos, que ficam mais ricos, por sugarem as riquezas”, analisou.

‘O território do dinheiro e da fragmentação’
Nesta parte do livro, o autor retrata uma quebra no mundo, o “fragmento”, que consiste na mesma intensidade da globalização e é auxiliada pela difusão da informação e pela possibilidade de coexistir com o global. Então, existe uma ligação direta do fragmento, que é constituído pelos lugares, que não é localidade, mas sim o espaço do acontecer solidário, segundo Milton Santos.

‘Limites à globalização perversa’
Aqui, Milton desenvolve esses limites naquilo chamado por ele de “esquizofrenia do território”. “Se o governo deixa de usar os territórios com suas instituições, o narcotráfico usa. Ou ocupamos o território nacional como uma nação soberana, coisa que não somos, ou passaremos mais 500 anos nos lamentando e acreditando que aquele que não existiu como nós, nos constitui dos lugares que temos as possibilidades de construir e das paisagens que ainda precisamos construir, as nossas. Porque a maioria do povo brasileiro não é o construtor e nem o idealizador das suas cidades”, desenvolveu a geógrafa.

Neste capítulo, Milton Santos também mostra a irracionalidade dominante. “Onde você liga o rádio, a TV ou entra no YouTube, no Brasil, e vê cada barbaridade vinda do governo, das empresas, das pessoas e especialmente das classes ricas e médias, de te deixar atônito. É essa esquizofrenia que Milton cita”, comentou Maria Adélia. E isso, segundo a teoria do autor, é produto da reformulação das mentes, provocada pela globalização, que coloca em prática a seguinte dinâmica política: “transformando o ser humano no consumidor mais que perfeito e em um cidadão mais imperfeito”.

‘A transição em marcha’
Segundo Maria Adélia, “A transição em marcha” é uma história em que Milton Santos acredita que esteja sendo construída a partir do advento do período popular, que, para ela, começa a partir da queda das Torres Gêmeas de Nova York, em 11 de setembro de 2001.

Abrindo para o debate
O primeiro a participar do debate foi o escritor e professor João Flávio de Almeida. Ele questionou, pelo conhecimento e proximidade de Milton Santos que a geógrafa tem, como ele pensaria a globalização atual (Santos faleceu em 2001), que ao contrário de promover uma democratização da informação, mostra uma colonização que cria delírios coletivos. Maria Adélia respondeu que há muito tempo o geógrafo já dizia que a racionalidade do mundo se tornou política e não econômica. “Daí a importância que nós damos à constituição dos lugares, é fazer como o Revolução Poética, possibilitar encontros para a discussão. Mas acho que ele continuaria desenvolvendo e fazendo a militância política que ele fez, mas pensando com muita profundidade no que seria esse período popular da história”, comentou a professora.

Em seguida, o músico e produtor cultural Leser MC questionou a palestrante sobre qual seria sua visão, com base na geografia, das periferias em relação às drogas, a criminalidade e a marginalização. Segundo ela, aprendemos a fundamentar nossa vida na economia e ela abocanhou a produção, se tornando algo do capitalismo. “O que você vai fazer em um mundo pobre? Quem tem riqueza não vai querer distribuir, o problema é esse. Há políticas que temos de apoiar fielmente”, explicou

O último a perguntar foi Mikael Alerrandro, do projeto NAU, que questionou como seria possível haver um equilíbrio da utopia das classes mais altas e as mais baixas. “A utopia, antes de tudo, é da pessoa, é individual. A social nasce de uma complexidade muito maior. Então é impossível que as utopias das classes mais baixas sejam as mesmas das de cima”, analisou Maria Adélia, para quem toda utopia é movida pela poesia. “Nenhuma pessoa, seja professor, cientista ou empresário, deveria deixar de ler ao menos uma poesia por dia. É um oráculo”, finalizou a geógrafa.

Revolução Poética
O “Revolução Poética – Festival de Ideias” foi contemplado pelo edital ProAc Expresso LAB 40/2020 criado através da Lei Aldir Blanc. Trata-se de um projeto realizado pelo Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa, Instituto SEB e Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto.

Todas as atividades, realizadas de 25 a 27 de abril, estão disponíveis e podem ser acessadas pelas redes sociais da Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto (YouTube e Facebook) ou pela plataforma digital (www.fundacaodolivroeleiturarp.com/).

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